CAKE: CÉUS, ESTAMOS NO CÉU!


A cultura americana, de fato, está muito presente no nosso dia-a-dia graças à globalização. Nossos costumes, nossas preferências musicais e até mesmo nossas expressões idiomáticas sofrem influência direta (ou indireta) do que se faz nas terras do Tio Sam. Aprendemos desde cedo a absorver a ideia de que o que vem de lá é relevante e assim perpetua-se a hegemonia americocêntrica da cultura, economia e da política no nosso cotidiano.


Um dos exemplos que talvez mais expressem essa americanização das nossas vidas é a música. Por mais que ainda tenhamos muitas vertentes características da música brasileira (como o funk, o samba, o pagode e o sertanejo), a maior parte dos mesmos acabam sendo influenciados pelo que dita a moda nos Estados Unidos. Auto-tunes, batidas eletrônicas, e canções mid-tempo têm estado em alta nos últimos anos pelo mundo inteiro. E não é a toa, pois justamente lá - na terra do fast-food - o pop tem dominado a indústria fonográfica, levantando milhões de dólares durante o ano para inúmeras gravadoras e é claro, artistas que trabalham no meio.

Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que os breaks  das paradas de sucesso eram na verdade dominados por solos de saxofone e piano. A chamada música clássica dos Estados Unidos, o jazz, dominou o mundo durante boa parte do século XX, vindo a perder suas forças lentamente com a ascensão de outros movimentos musicais - como o funk, o hip-hop e o próprio pop, mas não sem deixar sua marca para sempre como o que muitos chamam de "a verdadeira música norte-americana".

Dizem que o jazz se propagou nas speakeasies de Nova Orleans - locais onde bebidas alcoólicas eram vendidas ilegalmente durante o período de proibição de venda desse tipo de líquido no território americano (de 1920 a 1933) -, tornando-se símbolo da imoralidade da época (papel que o rock passou a representar anos mais tarde). Fortemente influenciado pela cultura negra trazida pelos escravos nos séculos XVIII e XIX, durante muito tempo o jazz foi taxado como música popular (no sentido mais pejorativo da palavra, já que estamos nos referindo à músicas tocadas e cantadas por negros - majoritariamente pertencentes às classes mais baixas da sociedade), ao contrário do que se constata atualmente, onde é apreciado por um parcela mais abastada da sociedade norte-americana, por sua vez (pasmem!) branca. Claro, não significa que em épocas passadas e mesmo atualmente brancos não ouçam jazz e visse versa, porém o distanciamento cultural entre esses dois núcleos era bem mais palpável do que talvez se perceba hoje em dia.

Com o passar das décadas, o jazz foi perdendo espaço nas paradas de sucesso para outros ritmos, tornando-se um ritmo elitizado e cada vez menos presente na cultura popular do mundo. Nascia o pop, e o rock aderia ao uso das guitarras elétricas, numa época em que o expansionismo cultural norte-americano fez um "boom" e infiltrou-se em praticamente todas as culturas do globo, ditando as novas regras da cultura massificada. Frank Sinatra, Tony Bennet, Ella Fitzgerald, Norah Jones e tantos outros deram lugar à Madonna, Michael Jackson, Spice Girls, Cindy Lauper e tantos outros grandes nomes da indústria pop que aderiram à cultura de massa e projetaram a indústria fonográfica pelos tubos dos aparelhos televisores do mundo inteiro.

E assim chegamos ao século XXI. O avanço tecnológico e a propagação da informação cada vez mais rápida, além é claro do surgimento de novas formas de compra e venda de música transformaram radicalmente mais uma vez nosso relacionamento com a primeira arte. Passamos a consumir música muito mais rápido e em espaços de tempo cada vez mais curtos, demandando um fôlego gigantesco da indústria como um todo para alimentar a insaciedade das massas por novidades. Talvez esse seja um dos pontos para o nítido desgaste do mercado - onde novidades precisam pintar cada vez mais rápido e vender cada vez mais e a qualidade e a inovação acabam se perdendo no meio disso. O resultado final são artistas de um hit só e álbuns bem produzidos fadados ao fracasso comercial pela exigência de muitos hits atrás de hits, dólar atrás de dólar (mas isso é papo para outro momento).

Nesse contexto amplo, há a figura de Lady Gaga. A nova-iorquina (jura?) viu seu nome ser projetado ao sucesso rapidamente quando surgiu em meados de 2008 com um ritmo eletrônico totalmente fresco e bem trabalhado numa época de muitos "iê-iê-iês" e "na-na-nas". Usando sua imagem para promover sua música, Gaga passou a trazer influências da arte e da própria indústria, reavivando estilos e tendências que marcaram os tempos de outrora, unindo-as novamente em um sincretismo que levantou a indústria e a tornou o fenômeno que é conhecida hoje. Por uma série de quesitos próprios, e muito da gula que o monstro da fama sustenta, após sua ascensão meteórica Gaga viu-se (como muitos chamam) passando pelo estágio questionável do "flop". Seus álbum ARTPOP não alcançou os números dos antecessores, suas músicas amargavam posições apenas "ok" nas paradas e suas roupas, cada vez mais excêntricas, não surtiam mais o efeito do espanto que outrora provocava. Com a imagem desgastada,  todos esperavam por sua excentricidade, então o fator surpresa já não funcionava mais.

E o que fazer quando se está em um fase aquém do esperado pela mídia, pelo público e pela sua gravadora? Nada contra a correnteza e sai da zona de conforto, é claro! Assim nasce Cheek to Cheek, o motivo para toda essa introdução. A lenda viva do jazz Tony Bennet se junta à mulher de 29 anos que movimentou (e porque não dizer, ainda movimenta) a cultura pop para criarem uma ode à música clássica norte-americana, o american dream de tempos passados: o jazz. O álbum lançado em conjunto ano passado (2014), já é o mais bem sucedido da categoria nos últimos anos. Com vendas nem comparáveis ao que se costuma ver na indústria pop (mas que não vai lá muito bem das pernas não), o álbum tem sido bem recepcionado pelo pública e pela crítica, ambos aclamando esse frescor na carreira da cantora que demonstra uma grande potência vocal nas 11 faixas da versão standart do CD que faz uma releitura do Great American Songbook, que reúne os maiores clássicos da história do jazz.

Após uma fase complicada em sua carreira, Gaga tem visto seu renascimento com esse novo projeto (o que talvez explique sua dedicação enquanto canta com a alma em cada música, por cada nota tocada). O senhor Bennett, octogenário, mostra o porquê é uma das lendas mais importantes para a música como um todo e é, talvez, o cantor de jazz mais bem sucedido desde que se teve notícias.

O álbum abre com "Anything Goes", que por sinal também foi a primeira música de trabalho da dupla, faixa animadinha para fazer você ir pra pista de dança (não de uma rave, mas quem sabe de um baile de gala) para dançar "até os bofes caírem" no meio do salão. Outras faixas seguem, como "I Can't Give You Anything But Love" e as intimistas "Lush Life" (numa interpretação emocionante, diga-se de passagem) e "But Beautiful" (penúltima faixa do álbum). "It Don't Mean a Thing (If I Ain't Got that Swing)" fecha a versão normal, que ainda tem as faixas "Don't Wait too Long", "Goody Goody", "Ev'ry Time We Say Goodbye", "They All Laughed", "Bewitched, Bothered and Bewildered", "On a Clear Day (You Can See Forever)" e "The Lady is a Tramp" na versão deluxe.

Fazendo o jazz renascer, e aproximando-o das gerações mais novas, Gaga e Bennett invadem os canais de televisão e as manchetes com apresentações vocalmente esplêndidas (ainda que ele já demonstre o inevitável desgaste da idade), massificando (ainda que em proporções razoáveis) mais uma vez o que já foi o maior produto musical de exportação dos Estados Unidos para o mundo. Como uma agenda de divulgação espetacular - a qual inclui-se uma campanha de fim de ano para uma famosa loja norte-americana e um especial de uma hora num dos maiores canais do país -, os dois "lacradores do jazz" nos fazem querer dançar mais coladinho, bochecha com bochecha, mais uma vez.

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